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José Ramos Coelho · Modernismo

J. Ramos Coelho

portugués

ORREU; bem como gelido

Ficou, sem movimento,

Dado o mortal anhelito,

Orpham de tanto alento,

Assim ferida, attonita

Co' a nova a terra está ;

Muda, na hora última

Do homem fatal pensando,

Não sabe quem tão válido,

Como elle caminhando,

Seu pó de sangue humido,

Como elle, pisará.

Brilhante o viu no solio

O genio meu, cahido

Depois, depois no imperio,

Depois em fim vencido,

E do universo ao fremito

Sua voz unir não fez.

Virgem de servo encómio,

E de covarde insulto,

Acorda ao sol esplendido,

Tão de repente occulto,

E solta á norte um cantico,

Que é do porvir talvez.

Dos Alpes ás Pyramides,

Do Rheno ao Manzanares,

Raio, o veloz relampago

Seguiu, rasgando os ares ;

Troou de Scylla ao Tanais,

De um mar a outro mar.

Foi verdadeira glória !

Aos tempos a sentença.

Nós adoremos timidos

De Deus a fôrça immensa,

Que n'elle quiz a maxima

Sua obra apresentar.

O procelloso e trépido

Prazer d'uma alta empreza,

A ância de um peito indonito

Que sonha a realeza,

E a ganha, e alcança um prémio

Que era loucura esp'rar,

Tudo provou : a glória

Maior depois do p'rigo,

A fuga e a victória,

O throno e o exilio imigo,

No pó duas vezes, próspero

Duas vezes sôbre o altar.

Appareceu; dous seculos,

Um contra o outro armado,

Ante elle prosternaram-se

Como aguardando o fado ;

Impôz silencio, e árbitro

Entre ambos se foi pôr.

Despareceu, e no ocio,

N'uma ilha só no imundo

Findou, alvo contínuo

Da inveja e dó profundo,

De inextinguivel ódio,

E de indomado amor.

Qual sôbre a fronte ao náufrago

Se enrola e cai pesada

A vaga, d'onde o misero,

Co'a vista aita alongada,

Buscava em torno avido

Praia longinqua em vão,

Tal n'aquella alma em cúmulo

Tombaram mil memórias.

Oh ! quanta vez aos posteros

Tentou narrar suas glórias,

E nas eternas páginas

Cahiu sem força a mão !

Oh! quantas no fim tacito

De um dia sem proveito,

No chão o olhar fulmineo,

Os braços sôbre o peito,

Inteiro o seu preterito

Viu de repente erguer.

Lembrou as tendas móveis,

Os valles resoando,

Do aço o brilho trémulo,

Os esquadrões ondeando,

E o concitado imperio,

E o prompto obedecer.

Ai ! a tammanha mágoa

Cedeu talvez afflicto,

E desesp'rou ; mas válido

Braço desceu bemdito,

E para outro ar mais limpido,

Piedoso o transportou ;

E pelas sendas flóridas

O conduziu da esp'rança

Ao campo eterno, ao prémio

Que mais que o anhelo alcança,

Onde é negror, silencio

A glória que passou.

Fé immortal, benefica

De palmas bella e ufana,

Mais um triumpho, alegra-te,

Que nunca outra mundana

Grandeza egual do Golgotha

Á affronta se humilhou ;

Exulta, e o resto exanime

Guarda-lh'o da maldade;

Quem mata, e abre os tumulos,

Quem pune, e tem piedade,

Deus do seu leito funebre

Ao lado se assentou.

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Por su autor
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Expediente

Autor
José Ramos Coelho
Título
J. Ramos Coelho
Lengua
portugués
Época
Modernismo
Libro o colección de origen
Cinco de Maio (1885)
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-j-ramos-coelho--jose-ramos-coelho-57f8ab
Cita recomendada
José Ramos Coelho, «J. Ramos Coelho», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-j-ramos-coelho--jose-ramos-coelho-57f8ab.html

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