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António Gomes Leal · Vanguardias / s. XX

O Selvagem

portugués

A Silva Qinto

Eu não amo ninguem. Tambem no mundo
Ninguem por mim o peito bater sente,
Ninguem entende meu sofrer profundo,
E rio quando chora a demais gente.

Vivo alheio de todos e de tudo,
Mais callado que o esquife, a Morte e as lousas,
Selvagem, solitario, inerte e mudo,
—Passividade estupida das Cousas.

Fechei, de ha muito, o livro do Passado
Sinto em mim o despreso do Futuro,
E vivo só commigo, amortalhado
N'um egoismo barbaro e escuro.

Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras
Regiões dos crueis indifferentes,
Meu peito é um covil, onde, ás escuras,
Minhas penas calquei, como as serpentes.

E não vejo ninguem. Saio sómente
Depois de pôr-se o sol, deserta a rua,
Quando ninguem me espreita, nem me sente,
E, em lamentos, os cães ladram á lua...

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Expediente

Autor
António Gomes Leal
Título
O Selvagem
Lengua
portugués
Época
Vanguardias / s. XX
Libro o colección de origen
Claridades do sul
Sala
La Biblioteca
Identificador
ws-pt-o-selvagem--antonio-gomes-leal-6eb7d3
Cita recomendada
António Gomes Leal, «O Selvagem», Poetósfera, poetosfera.com/p/ws-pt-o-selvagem--antonio-gomes-leal-6eb7d3.html

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